Laudo de ludopatia: o que precisa conter para ser aceito na Justiça

Resposta direta: o laudo de ludopatia que serve na Justiça é emitido por psiquiatra, traz o diagnóstico com o código 6C50 da CID-11 (ou F63.0 da CID-10), descreve o histórico e o tratamento e, principalmente, afirma que havia comprometimento da capacidade de decidir sobre dinheiro no período das apostas. Um atestado de uma linha, feito em consulta única, prova que a pessoa procurou tratamento, mas não sustenta o pedido de devolução.

Em ação de recuperação de valores perdidos em apostas, o laudo é a peça que decide. Não é um detalhe do processo nem um documento acessório: é ele que sustenta a tese de que a pessoa não agia com pleno discernimento quando apostou. Um laudo bem feito abre o caso. Um laudo genérico fecha. Esta página explica o que o documento precisa conter, quem pode emitir, como conseguir, o erro mais comum e por que o laudo sozinho não ganha a ação. Serve para quem vai procurar um médico e para quem já tem um laudo na mão e quer saber se ele se sustenta.

O que é ludopatia para a medicina e para o Direito

A ludopatia, ou jogo patológico, é reconhecida formalmente como transtorno mental. Na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde aparece na CID-11 sob o código 6C50, como transtorno do jogo, e na CID-10 sob o código F63.0, como jogo patológico. O manual da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5-TR, também traz critérios diagnósticos próprios, e é comum o laudo se apoiar nos dois sistemas.

Essa classificação importa juridicamente porque desloca a discussão. Deixa de ser uma questão de escolha ou de falta de disciplina e passa a ser uma condição de saúde que compromete a capacidade de autodeterminação, especialmente para atos que envolvem dinheiro. A própria Lei 14.790, de 2023, que regulou as apostas no Brasil, proíbe a aposta por pessoa diagnosticada com ludopatia por profissional de saúde mental habilitado. É sobre esse ponto que a ação se constrói: a plataforma tinha o dever de proteger quem estava doente e, em vez disso, continuou lucrando com a doença.

Quem pode emitir o laudo

O laudo diagnóstico é do médico psiquiatra. É ele quem tem competência para firmar o diagnóstico com o código da CID e para se pronunciar sobre o comprometimento da capacidade de discernimento. O relatório do psicólogo não substitui o laudo médico, mas soma muito quando existe acompanhamento continuado, porque documenta a evolução ao longo do tempo. Declarações de grupos de apoio, comprovantes de internação e receituários de medicação entram na mesma lógica: não fazem o diagnóstico, mas confirmam que o tratamento é real e não foi montado para o processo.

O que o laudo precisa conter

Este é o ponto em que a maioria dos casos tropeça. Um documento que apenas afirma que o paciente tem ludopatia não serve. A tabela abaixo mostra cada item que o laudo precisa responder e por que ele importa para o processo.

O que o laudo deve trazer Por que importa no processo
Identificação completa do paciente e do médico, com CRM, e o tempo de acompanhamento Mostra que há relação clínica real, não uma consulta feita só para o processo.
Diagnóstico com código: CID-11 6C50 ou CID-10 F63.0, e os critérios usados Laudo sem código é laudo fraco. O código liga o caso à classificação da OMS e à Lei 14.790.
Histórico e evolução: quando começou, como progrediu, o que o paciente relatou Permite situar a doença no mesmo período dos depósitos que aparecem no extrato.
Comprometimento da capacidade de autodeterminação para atos financeiros e patrimoniais no período das apostas É a frase mais importante do documento, e a que mais falta. Sem ela, o laudo prova a doença mas não o vício de vontade.
Impacto funcional: efeitos na vida profissional, familiar e financeira Fundamenta o dano moral e, quando há afastamento, dialoga com o pedido no INSS.
Tratamento em curso: medicação, terapia, frequência das consultas Afasta o argumento da defesa de que o laudo foi produzido sob encomenda.
Data, assinatura, carimbo e registro profissional Requisitos formais que a plataforma vai conferir antes de qualquer outra coisa.

O erro mais comum: o laudo de uma linha

O documento que chega ao escritório com mais frequência é um atestado curto, dizendo que o paciente está em acompanhamento por transtorno relacionado a jogo, com o código da CID e nada mais. Ele prova que a pessoa procurou tratamento, o que já é alguma coisa, mas não prova o que interessa para o processo: que havia comprometimento do discernimento no período em que as apostas foram feitas.

Outro problema recorrente é o laudo emitido depois de uma única consulta, sem histórico. Ele é atacado com facilidade pela defesa da plataforma, que argumenta ter sido produzido apenas para instruir a ação. Quanto maior o tempo de acompanhamento documentado, mais sólido fica o caso. Se você está começando o tratamento agora, vale saber disso desde já e pedir ao médico que registre a evolução a cada consulta.

Como conseguir o laudo

Há dois caminhos. O primeiro é o psiquiatra particular, que costuma conseguir emitir o laudo depois de duas ou três consultas com histórico, e que pode ser orientado sobre os itens da tabela acima. O segundo é a rede pública: o CAPS e as unidades de saúde mental do SUS atendem dependência de jogo sem custo, e o prontuário e os relatórios do serviço valem como prova, embora a espera seja maior. Nos dois casos, o pedido ao profissional deve ser claro: não é um atestado para faltar ao trabalho, é um laudo para instruir ação judicial, e ele precisa tratar da capacidade de decidir sobre dinheiro no período das apostas. Não existe modelo pronto que substitua a avaliação do médico, e laudo comprado ou padronizado derruba o caso inteiro.

O laudo sozinho não ganha a ação

Mesmo o melhor laudo do mundo é apenas um dos três pés do caso. Os outros dois são a prova financeira e a demonstração de que a plataforma falhou. A prova financeira vem dos extratos bancários e do histórico da conta na plataforma. O que convence não é o valor total, e sim o padrão: depósitos sucessivos e cada vez maiores, recargas feitas de madrugada, e o uso de dinheiro que tinha destino certo, como aluguel, mensalidade escolar, alimentação ou capital de trabalho. Esse desenho de comportamento é o que traduz a doença em linguagem de processo.

A falha da plataforma é a peça que muita gente esquece de reunir e que costuma ser a mais forte. A Lei 14.790 e a Portaria SPA/MF 1.231, de 2024, impõem às casas de apostas o dever de oferecer limites, acompanhar sinais de comportamento de risco, alertar o usuário e respeitar a autoexclusão. Três provas mostram o descumprimento com clareza: o pedido de autoexclusão ignorado ou revertido, o e-mail de bônus enviado depois de a plataforma já ter registrado perdas expressivas do jogador, e a oferta de crédito ou rodada grátis em sequência a uma perda. Guardar esses prints antes de apagar qualquer coisa muda o caso de patamar. Explicamos o peso de cada uma em laudo de ludopatia e prova e em bônus enviado a pessoa com ludopatia.

E se eu ainda não tenho laudo?

Não é impedimento para conversar, e em muitos casos a orientação inicial é justamente sobre como buscar o acompanhamento e o que pedir ao profissional. O que não dá para recuperar depois é a prova que se perde: não apague a conta na plataforma, não exclua os e-mails e não feche a conta bancária usada para as recargas. O histórico costuma sumir quando a conta é encerrada, e sem ele nem o melhor laudo sustenta o pedido. Se ainda está em dúvida sobre o diagnóstico, os sinais de vício em apostas ajudam a decidir se vale procurar o médico.

Vale registrar também um segundo caminho, que não depende de laudo nenhum: quando a dívida foi contraída em empréstimo bancário para bancar a aposta, é possível discutir a revisão desse contrato e pedir a repactuação pela Lei do Superendividamento, a Lei 14.181 de 2021, que protege o mínimo existencial. Veja como renegociar dívidas pela Lei 14.181. São duas frentes que costumam andar juntas.

Quando procurar advogado

Vale conversar quando há laudo, ou possibilidade de obtê-lo, somado a uma perda alta e a algum sinal de falha da plataforma. O Rocha Advogados atende casos de recuperação de valores em apostas a partir de R$ 100 mil de perda somada, em todo o Brasil, porque abaixo disso o custo e o desgaste do processo raramente compensam para o cliente. Se a sua perda foi menor, o caminho que mais resolve é pedir a autoexclusão em cada plataforma, manter o tratamento, renegociar as dívidas pela Lei do Superendividamento e, se houver saldo preso, reclamar no consumidor.gov.br. O passo a passo do processo está em como processar uma casa de apostas e o panorama completo no guia de recuperação de valores em apostas.

Perguntas frequentes

Qual é o CID da ludopatia?

São dois, e o ideal é que o laudo cite pelo menos um deles de forma expressa: 6C50 na CID-11, que é a classificação vigente da Organização Mundial da Saúde, e F63.0 na CID-10, ainda muito usada na prática clínica brasileira. Laudo sem código é laudo fraco.

Psicólogo pode fazer o laudo de ludopatia?

O diagnóstico com código da CID é atribuição do médico psiquiatra. O relatório do psicólogo não substitui esse laudo, mas é uma prova valiosa quando há acompanhamento continuado, porque documenta a evolução do quadro ao longo do tempo e reforça que o tratamento é real.

Fiz uma consulta só e já saí com o laudo. Serve?

Serve como início, mas é frágil. Laudo emitido após consulta única, sem histórico, costuma ser atacado pela defesa como documento produzido para o processo. Acompanhamento continuado, com registro da evolução a cada consulta, deixa o caso muito mais sólido.

Meu laudo não fala nada sobre capacidade financeira. Preciso de outro?

Não necessariamente de outro, mas provavelmente de um complemento. É possível pedir ao mesmo profissional um relatório adicional que trate especificamente do comprometimento da capacidade de autodeterminação para atos financeiros no período das apostas, que é o ponto jurídico central.

O laudo garante que eu vou receber de volta?

Não. Nenhum documento garante resultado, e advogado que promete isso está descumprindo regra da própria profissão. O laudo é condição para discutir, não certeza de ganhar. O resultado depende dele somado à prova financeira e à demonstração de que a plataforma descumpriu o dever de cuidado.

E se o meu problema for a plataforma não liberar o saque?

Aí não precisa de laudo nenhum. Saque retido é outro tipo de caso: o dinheiro já foi reconhecido como seu quando a plataforma o creditou no saldo, então não se discute vício. É cobrança de valor devido, e costuma ser mais rápida. Veja bet bloqueou meu saque.

Como falar com o escritório

O atendimento é nacional, por WhatsApp e videochamada, com os documentos enviados digitalmente, e a ação corre na cidade do cliente, por força do Código de Defesa do Consumidor. Se você já tem laudo, a primeira conversa serve para dizer com honestidade se ele se sustenta e o que falta. Se ainda não tem, serve para orientar o que pedir ao médico e, principalmente, o que preservar agora, antes que o histórico desapareça.

Falar com o escritório no WhatsApp

Rafael Bispo da Rocha, advogado, OAB/GO 33.675, e Ivenise Uchôa de Almeida Rocha, advogada, OAB/GO 59.087. Rocha Advogados, Goiânia, atuação em todo o Brasil em ações contra casas de apostas.

Texto revisado em 23 de setembro de 2026.

Conteúdo informativo, não substitui a análise de um advogado sobre o seu caso concreto. O escritório não promete resultado (Provimento 205/2021 do Conselho Federal da OAB).

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